ORTODONTIA CONTEMPORÂNEA: Fios Ortodônticos

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Fios Ortodônticos



Neste artigo de 2001, publicado pela Revista Dental Press, pelos autores Júlio de Araújo Gurgel, Adilson Luiz Ramos, Stephen D. Kerr; das Disciplina de Ortodontia da Universidade de Marília, da Disciplina de Ortodontia da Universidade do Sagrado Coração - Bauru, da Ortodontia do Departamento de Odontologia da UEM - Coordenador do Curso de Especialização em Ortodontia da AMO - ABO - Maringá e do Department of Orthodontics University of Texas-Houston Health Science Center, Dental Branch. Este artigo revisa alguns conceitos, propriedades e aplicação clínica destes novos materiais. Estas novas ligas têm propiciado algumas alterações no protocolo de tratamento, encurtando o tempo de cadeira, bem como do tratamento como um todo. As propriedades particulares destas ligas permitem a aplicação nas várias fases do tratamento, substituindo em grande parte o uso dos fios clássicos de aço.

Talvez o primeiro protótipo ortodôntico para estabelecer uma forma de arco seja o dispositivo “Bandelette”, que Pierre Fauchard idealizou para correções das posições dentárias. Tratava-se de uma tira de metal, que se prestava para dar a forma do arco, associada às amarrias de prata ou latão, para promover as movimentações. Mantendo a idéia de Fauchard, Angle desenhou seu aparelho (arco E), que continha um arco preso à bandas nos molares. Este arco continha parafusos para aumentar o perímetro do arco e obter espaço para “laçar” os dentes, posicionando-os adequadamente. Como historicamente conhecido, Angle realizou freqüentes transformações em seus aparelhos, passando para um sistema mais preciso, onde o fio ortodôntico se encaixava aos apoios, inicialmente de cervical para oclusal – tubos e pinos . Num desenho subseqüente, propôs a utilização de um fio de secção retangular em forma de cinta, tornando-se conhecido como “ribbonarch”. Estas evoluções culminaram com a invenção do conhecido “edgewise”, onde o fio ortodôntico passou a ser inserido pelo aspecto frontal do braquete, como até os dias atuais.

Por todo o século XX, a evolução dos fios ortodônticos ocorreu paralelamente à dos braquetes. No início o ouro, a prata, o bronze e o latão eram os materiais disponíveis para os aparelhos ortodônticos. Após a primeira guerra mundial a invasão do aço na indústria contaminou também a ortodontia, que passou a utilizá-lo como rotina. O uso do aço inoxidável ocorre até hoje, e paulatinamente vai cedendo espaço aos novos e atraentes materiais.

LIGAS E CONFIGURAÇÕES DOS FIOS ORTODÔNTICOS

Continuação link abaixo ....





Aço inoxidável - O aço inoxidável utilizado na Ortodontia é do tipo austenítico. Sua composição média é de 18% de Cromo, 8% de Níquel, 0.08 a 0.15% de Carbono e o restante (maioria) de Ferro.

Características: devido a sua versatilidade esta liga metálica tornou-se tradicional para a ortodontia. Com uma ótima formabilidade permite a execução de dobras com facilidade e precisão. Apresenta ainda ótima soldabilidade e baixo atrito, além do baixo custo.

Aplicações: A excelente formabilidade ou plasticidade desta liga permite sua versatilidade para o uso ortodôntico. A fácil manipulação deste material o indica para a aplicação em diferentes estágios do tratamento ortodôntico. Atualmente o aço é empregado nas etapas do tratamento cujo contorno dos arcos deva ser estável, visando à manutenção das dimensões transversais dos arcos dentários.

Limitações: a alta rigidez desta liga é um fator que deve ser controlado pela redução do calibres dos fios ou confecção de alças quando objetiva-se movimentos dentários individuais.

Cromo-Cobalto - No início da década de 60, a “Elgin Watch Company” desenvolveu uma liga metálica contendo 40% de Cobalto, 20% de Cromo, 15% de Níquel, 15.8% de Ferro, 7% de Molibidênio, 2% de Manganês, 0.16% de Carbono e 0.04% de Berílio. Esta liga de Cromo-Cobalto, foi introduzida no mercado com o nome de “Elgiloy” (Rocky Mountain Orthodontics).

Característica: Suas propriedades são muito semelhantes às do aço,entretanto com maior formabilidade. O Elgiloy é fabricado em quatro têmperas com variação decrescente na formabilidade, de modo que o clínico seleciona a têmpera mais adequada segundo a formabilidade requerida.

Aplicação: A formabilidade do Elgiloy sendo superior ao do aço, auxilia o clínico na conformação de dobras e helicóides, principalmente nos fios retangulares. Na época de seu lançamento, a possibilidade de realizar dobras e helicóides com mais facilidade indicava a redução do tempo de trabalho e o fato de utilizá-las em fios retangulares proporcionavam maior controle do movimento dentário.

Limitações: Em virtude de sua rigidez ser muito próxima do aço e para a redução do custo os ortodontistas, após alguns anos, o aço prevaleceu ao CrCo em detrimento das propriedades mecânicas do ELGILOY.

Níquel-Titânio Estável (M-NiTi ou trabalhado à frio) - A liga de Ni-Ti do grupo estável, também referida como NiTi trabalhado a frio, não aceita mudança de fase apresentando-se sempre como martensítico, por isso é chamada de M-NiTi. Esta modalidade de fios Ni-Ti disponibilizou-se para comercialização nos anos 70. Foi desenvolvido sob a supervisão do programa espacial americano e introduzido no mercado com o nome de Nitinol (acróstico das palavras Níquel, Titânio e NOL – Naval Ordinance Laboratory) pela Unitek Corp. Atualmente há vários similares no mercado.

Características: A principal característica dos clássicos M-NiTi é a boa elasticidade, e como apresenta apenas 30% da rigidez do aço inoxidável (comparando-se fios de mesma secção) permite uma favorável adaptação do fio ortodôntico nas etapas iniciais do alinhamento e nivelamento para os caso com apinhamento acentuado ou moderado.

Aplicações: Na comparação entre as ligas metálicas de uso ortodôntico, a M-NiTi possui boa resiliência, oferecendo forças de baixa intensidade, favorável ao movimento dentário.

Limitações: Este tipo de fio é pobre em formabilidade e não aceita soldagem. É possível apenas realizar dobras discretas e arredondadas.

Níquel-Titânio Ativo (A-NiTi ou NiTi termoativado, superelástico ou trabalhado em altas temperaturas) - Os fios ortodônticos dos anos 90 certamente foram os fios de Ni-Ti do grupo ativo (A-NiTi), suplantando os M-NiTi por oferecerem a singular vantagem da superelasticidade.

Características: Estes fios oferecem a melhor adaptação na ranhura do braquete, mesmo para fios com calibre próximo a dimensão da ranhura. Isto propicia maior simplicidade e rapidez ao tratamento, por facilitar o evolver da fase de alinhamento e nivelamento.

Aplicações: A superelasticidade associada ao efeito memória de forma, inerentes a estes fios, tornaram mais fácil e rápido o alinhamento e nivelamento dos arcos dentários. Como estes fios apresentam-se no mercado em diferentes temperaturas de transformação, e portanto alterações nos níveis de força diante da temperatura bucal, recomenda-se analisar fatores como a gravidade do apinhamento e as condições periodontais para selecionar o tipo de fio superelástico adequado para iniciar o alinhamento e nivelamento.

Limitações: pouca formabilidade, e não aceita solda além do alto custo. A baixa rigidez destes fios não permite que sejam utilizados para a retração dos dentes anteriores ou fechamento de espaços.

Beta-titânio ou titânio-molibidênio A liga de Titânio-Molibdênio, mais conhecida na Ortodontia pelo acróstico “TMA” (Titanium Molybdenum Alloy - Ormco Corp.) - Apresenta uma composição de 79% Titânio, 11% Molibdênio, 6% Zircônio, 4% Estanho. Esta liga foi idealizada por Burstone, nos anos 80, com o objetivo de suplantar as vantagens do aço e do M-NiTi ou martensítico estável.

Características: A grande vantagem desta liga é a resiliência, associada a uma moderada formabilidade. Em comparação ao aço inoxidável, o “TMA” apresenta a metade da rigidez, consequentemente o dobro de resiliência.

Limitações: A grande desvantagem é o alto atrito da superfície desta liga, até oito vezes maior que o aço. Em uma tentativa inicial realizou-se o tratamento na superfície destes fios para tornar o atrito semelhante ao aço, porém com um significativo aumento de custo.

Fios de resina e fibra de vidro - Confeccionados de fibras cerâmicas embebidas em uma matriz polimérica, estes fios ainda encontram-se como protótipo. Apesar de excelente compatibilidade com a coloração dos dentes, o fio Optiflex (Ormco /Sybron) foi recolhido do mercado por ser susceptível à fratura, embora numa pesquisa recente tenha demonstrado boa liberação de forças, mas com perda de efetividade após submetido ao meio aquoso.

Características: elasticidade próxima a dos fios M-NiTi; baixo coeficiente de atrito; formabilidade e soldabilidade desconhecidos.

Aplicação: a disponibilidade em secções redonda e retangular possibilita o uso em diferentes estágios do tratamento.

Limitações: fragilidade e problemas com relação à hidratação da matriz polimérica ainda restringem o uso destes fios, apesar das recentes melhorias na composição da matriz polimérica.

Mesmo que o uso de fios com propriedades diferenciadas indiquem um aumento no custo, os benefícios desta opção são cada vez mais claros para o profissional e para o paciente. O uso coerente dos fios ortodônticos, acompanhado de um ótimo diagnóstico e o profissional e para o paciente. O uso coerente dos fios ortodônticos, acompanhado de um ótimo diagnóstico e planejamento, resultam numa correção ortodôntica mais eficiente e realizada em menor período de tempo.


Link do artigo a integra via Dental Press:

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