ORTODONTIA CONTEMPORÂNEA: Entrevista com o Dr. Flavio Vellini - Parte 01

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Entrevista com o Dr. Flavio Vellini - Parte 01



Hoje dividiremos uma entrevista com um Ortodontista que de forma indireta despertou o meu interesse em abraçar a Ortodontia como especialidade. Pois foi através da leitura do seu livro no período da graduação, que pude conhecer um pouco mais da nossa amada Especialidade.   

O Professor Doutor Flavio Vellini, gentilmente e prontamente se dispôs a responder as perguntas desta entrevista que aconteceu em dezembro de 2009, e foi a primeira personalidade da Ortodontia a participar e dividir sua Historia com os leitores do nosso BLOG Ortodontia Contemporânea. E mais tarde em 2011, tive o prazer e Honra de ser seu aluno, período no qual ele Coordenou o Programa de Mestrado em Ortodontia da Universidade Cidade de São Paulo. Agradeço também a Dra. Angela Macedo da equipe do Dr. Vellini por toda a atenção prestada consoco. A entrevista foi divida em duas partes. No qual o autor revela sua grande fonte inspiradora, o seu Pai, graduado em Odontologia em 1916, revela o lançamento de um novo Livro e uma edição do seu clássico livro em Inglês. Mostra a eficiência e a importância da analise Carpal e das vertebras no diagnóstico ortodontico. Fala sobre o Aparelho extra bucal e da sua importância. Espero que gostem e aproveitem !!!


1) Marlos Loiola - Dr. Vellini, gostaríamos de saber um pouco do seu histórico acadêmico /profissional, quando e onde graduou-se, especializou-se, pós-graduou, por onde lecionou, pesquisas realizadas.

Prof. Vellini - Pertenço a uma família tradicionalmente de cirurgiões-dentistas. Meu pai, Dr. Augusto de Oliveira Pinto Ferreira, formou-se no ano de 1916, pela então Escola de Pharmacia e Odontologia, hoje Universidade de São Paulo aonde, quatro décadas mais tarde aproximadamente, graduei-me, razão pela qual em um de meus livros prestei-lhe justa homenagem pelo exemplo que transmitiu a seu filho, a seus netos Dr. Flávio Augusto Cotrim Ferreira e Dra. Andréia Cotrim Ferreira, e à Dra. Érica Ferreira Arruk Nicoli, minha sobrinha.



Na USP construí minha carreira universitária recebendo os títulos de Mestre, Doutor, Livre-Docente e Professor Associado de Anatomia, tendo editado, juntamente com o Prof. Dr. Octavio Della Serra a obra - Anatomia Dental – hoje com três edições em português. Dessa maneira adquiri uma sólida formação biológica, alicerce fundamental de minha carreira acadêmica.


Prof. Picosse ministrando aula sobre cavidade bucal, assistida pelo Prof. Vellini

Prof. Vellini e Prof. Picosse, na USP, trocam idéias sobre o ensino das ciências básicas aplicadas à clínica.

Embora envolvido no ensino e na pesquisa, jamais abandonei a clínica, por entender que necessitava aliar ciência e arte para melhor preparar meu alunado. Cedo enveredei pelos caminhos da Ortodontia, sendo acolhido pelos Professores Dr. Arthur do Prado Dantas, Dr. Sebastião Interlandi, Dr. Manoel Carlos Muller de Araújo e Dr. Décio Rodrigues Martins, todos pertencentes a USP, com os quais colaborei intensamente ministrando as disciplinas de Crescimento e Desenvolvimento Craniofacial nos cursos de Mestrado que então se implantavam no Brasil.

Especializei-me com o Prof. Muller de Araújo na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (UNICAMP) do qual fui Assistente, o que me permitiu galgar alguns anos mais tarde, a posição de Professor Titular de Ortodontia nas Universidades Cidade de São Paulo e de Santo Amaro, sendo que na primeira ocupei o cargo de Diretor durante vinte e dois anos.

A experiência adquirida por mais de três décadas no ensino, na pesquisa e na clínica particular, autorizou-me, com reconhecimento do MEC, a edificar no ano de 1997, o Instituto de Pós Graduação que leva meu nome, instalado na Vila Mariana (Unidade I) e posteriormente na Avenida Paulista (Unidade II).

Imbuído da idéia constante de transmitir os conhecimentos que adquiri ao longo de tantos anos de atividades, escrevi livros, publiquei mais de uma centena de trabalhos no Brasil e no exterior, organizei serviços ligados à cultura e ao atendimento à comunidade, bem como participei ativamente de congressos, seminários e fóruns clínicos.


2) Marlos Loiola - Conforme contato inicial, falei que seu livro me influenciou na escolha da ortodontia, já na graduação. Como e quando surgiu a idéia de escrever um livro tão abrangente e utilizado nas Universidades Brasileiras. Quantas edições, em quantos e quais países foi publicado. Existe algum novo projeto a caminho?

Prof. Vellini - Desde jovem procurei expressar meu pensamento por meio da redação, colaborando em jornais, em produções literárias e artísticas.

Como professor, tive a oportunidade de firmar-me no campo da escrita amparado por notáveis mestres de incalculável cultura, mormente europeus, quando da minha estada no velho mundo por ocasião de bolsa de estudo com que fui agraciado.



O exemplo desses educadores marcou-me profundamente a ponto de incentivar-me a publicação do livro Anatomia Dental na década de 70.
A seguir, dedicando-me com afinco ao ensino da especialidade, iniciamos, eu e minha equipe, a reunir material para a edição da obra – Ortodontia: diagnóstico e planejamento clínico – dirigida ao aluno de graduação e pós-graduação, na qual trabalhamos, desde o projeto inicial até sua edição final, aproximadamente dez anos.

Acredito que o grande sucesso do livro, que conta atualmente com sete edições em português, duas em espanhol e uma em língua inglesa (em preparo), foi o fato de mostrar ao estudante que o sucesso do tratamento ortodôntico depende de um correto diagnóstico clínico e um bem fundamentado planejamento do caso. Para a complementação dessa edição, estamos em vias de término da obra Ortodontia Clínica – tratamento com aparelhos fixos, que acredito será de grande valia àqueles que se dedicam à correção das más oclusões dentais.

3) Marlos Loiola - No seu livro é abordado e muito bem explicado a analise carpal (Mão e Punho). Atualmente tem saído inúmeras pesquisas sobre analise das vértebras cervicais, o que o doutor acha? Pela sua experiência e estudo, tal analise é tão confiável quanto a carpal?

Prof. Vellini - Como tivemos a oportunidade de expor em nosso livro sobre ortodontia, a determinação da maturidade esquelética por meio das radiografias de mão e punho, faz parte da listagem dos exames complementares empregados para um bom diagnóstico clínico e um correto planejamento do tratamento ortodôntico. Estudos têm mostrado que pelo menos dois terços dos casos tratados ortodonticamente incluem tipos de más oclusões aonde o crescimento e o desenvolvimento desempenham papel preponderante no êxito ou fracasso da mecanoterapia. Daí a importância do estudo da radiografia carpal e das vértebras cervicais, para uma avaliação não apenas do crescimento atuam mas também do crescimento que ainda está por vir.

Para o ortodontista é fundamental analisar a época de tratamento, ou seja, se precoce ou tardia. Equivale dizer, se ainda há crescimento craniofacial, ou se este já cessou. Essas informações, as radiografias de mão e punho e das vértebras cervicais nos fornecem, porém com alguma diferença: na primeira (mão e punho) podemos aferir através dos diferentes eventos de ossificação, o período de surto de crescimento puberal e a fase de término do crescimento, enquanto que na segunda avaliamos, pelas alterações morfológicas sucessivas das vértebras cervicais, apenas o surto de crescimento. Essa linha de pensamento nos leva a optar, mais comumente, pela radiografia carpal face à sua praticidade, reprodutibilidade, acurácia e segurança, uma vez que a região da mão e do punho apresenta menos estruturas anatômicas nobres que a região cervical. Ademais, a sinostose entre a epífise e a diáfise do segmento distal do rádio é um elemento seguro a nos indicar a fase de término de crescimento.


4) Marlos Loiola - Outro belo capitulo do seu livro aborda o Aparelho de tração Extra Bucal, usado e publicado por Jhon N. Farrar já em 1875 na Dental Cosmos, e muito bem descrito no seu livro. Gostaria de saber se na sua opinião tal aparatologia está em total desuso, ou se ainda tem alguma indicação?

Prof. Vellini - O trabalho publicado em 1947 no “American Journal of Orthodontics” por Silas Kloehn e intitulado “Guiding alveolar growth and eruption of the teeth to reduce treatment time and produce a more balanced denture and face”, conferiu novo alento aos aparelhos extrabucais utilizados por Kingsley em 1880 e Angle em 1900 aproximadamente e logo a seguir abandonados, sendo substituídos pelos elásticos intermaxilares devido à crença de que eles poderiam promover não apenas mudanças dentais quanto esqueléticas.

Pesquisas subseqüentes evidenciaram que alterações ósseas espaciais significativas só poderiam ser obtidas com o auxílio do aparelho extrabucal, fato este aceito até os dias atuais. Assim, sempre que se pretende movimentar um dente ou grupo de dentes com o aparelho extrabucal usa-se uma força mais leve e de intensidade menor. Para se conseguir alterações ortopédicas no complexo maxilomandibular, lança-se mão de forças pesadas e intermitentes. Elas abrem suturas, comprimem, expandem, guiam ou mudam a direção de crescimento dos ossos maxilares e da face. Essa é a razão pela qual a tração extrabucal continua tendo precisa indicação no tratamento ortodôntico e ortopédico.


5) Marlos Loiola - Existe também um capitulo que já abordava a importância da informática na Ortodontia, Hoje em dia inúmeros avanços tecnológicos andam atrelados a nossa especialidade, quais avanços na sua opinião ocorreram nestas áreas?

Prof. Vellini - Antevejo a próxima década como de grandes transformações na ortodontia, mormente pelo maior desenvolvimento e aplicação de softwares de diagnóstico e planejamento do tratamento ortodôntico. Além disso, presentemente, a maior parte de nossos pacientes submete-se a tratamentos com aparelhos padronizados cujo controle dos movimentos dentários nem sempre são expressos exatamente nos três planos de espaço. Com o avanço tecnológico contemporâneo, tanto o design do aparelho quanto o sistema de forças a ser empregado poderá ser melhor utilizado com o auxílio do computador. Ademais, os registros digitais dos casos clínicos, a análise e a interpretação dos cefalogramas facilitando à escolha de diferentes opções de tratamento, as previsões das mudanças de perfil resultantes do tratamento ortodôntico, a aquisição e o arquivamento de imagens facilmente transportáveis em tempo real pela internet, serão ferramentas que a cada dia se aperfeiçoam de modo a contribuir significativamente para o aprimoramento da atividade clínica do profissional.

6) Marlos Loiola - Atualmente inúmeros estudos mostram a eficiência dos Mini implantes ortodônticos. Utilizados em varias situações De acordo com sua experiência e estudos, quais situações em que devemos ter cautela na utilização destes acessórios? E claro, gostaria de saber, o quais são as vantagens e aplicações ao seu ver.

Prof. Vellini - Os mini-implantes ortodônticos constituem-se em dispositivos de ancoragem absoluta com múltiplas e eficientes aplicações clínico-ortodônticas, devido a seu tamanho reduzido, instalação em diversos sítios da cavidade bucal pelo próprio ortodontista, custo reduzido, simples procedimento cirúrgico com curto período de cicatrização, podendo ser removido após o tratamento. Todavia necessitamos ter cautela em seu emprego, pois algumas complicações podem ocorrer. A perda da estabilidade é a mais freqüente, dependendo de fatores vários como tipo de osso, região de inserção, etc.
Outro cuidado importante a ser tomado refere-se às raízes dentais; embora uma de suas características seja o reduzido tamanho, falhas em sua inserção relativas ao desconhecimento da topografia dental pode levar a uma lesão radicular. De outra parte, o acúmulo do biofilme bacteriano na porção exposta do mini-implante pode levar à inflamação do tecido mole em seu derredor (mucosite peri-implantar ).

A prática clínica tem evidenciado a possibilidade de fratura desse dispositivo de ancoragem, constituindo-se em um fator de risco em seu emprego. Pode ocorrer durante sua inserção ou retirada, estando normalmente relacionada ao excesso de força desenvolvida durante sua aplicação. Todavia, a qualidade e a densidade óssea podem influenciar na resistência ao torque de inserção levando à fratura da região próxima à cabeça do mini-implante.

Enfim, para obtermos sucesso na utilização dos mini-implantes como elemento de ancoragem absoluta, em ortodontia, nós devemos levar em consideração, além da seleção cuidadosa do caso clínico e os procedimentos rigorosos de biossegurança, as estruturas anatômicas envolvidas, as condições locais e gerais do paciente, bem como o tipo de material e sua forma adequada.




7) Marlos Loiola - Outro grande avanço foi no campo do diagnóstico, com a imagens digitais como a tomografia volumétrica Cone Bean. Na sua prática e estudos quais as aplicações e recursos deste poderoso instrumento?

Prof. Vellini - A tomografia computadorizada da região maxilofacial, representada pela tecnologia de feixe cônico (Cone Beam), tem representado um grande avanço no campo do diagnóstico e planejamento do tratamento ortodôntico. Imagens em 3 D, com a possibilidade de visualização das estruturas do crânio e da face em conjunto ou observadas independentemente mudando-se a densidade dos tecidos, tem permitido o estudo da morfologia da cabeça nas três dimensões do espaço, de forma dinâmica e estática, o mais próximo possível do natural. A observação nítida de áreas não visíveis nas imagens bidimensionais como a topografia radicular dos incisivos superiores com relação à cortical palatina, a quantidade de tecido ósseo vestibular ao nível das arcadas dentárias, o estudo do espaço aéreo faríngeo, a avaliação do posicionamento de dentes inclusos ou com raízes reabsorvidas (reabsorção interna ou externa), a avaliação em 3D da oclusão, da ATM, dos seios maxilares, são apenas alguns dos modernos recursos ligados a essa tecnologia contemporânea. Abrem-se desta maneira, no campo da pesquisa, novas perspectivas de estudo que permitirão melhor definir os objetivos dos tratamentos ortodônticos.


PROF. DR FLÁVIO VELLINI-FERREIRA (SP)

- Doutor, Livre-Docente e Professor Associado pela USP.
- Coordenador do Curso de Mestrado em Ortodontia do Instituto Vellini
- Diretor do Centro de Treinamento Odontológico e Coordenador dos Cursos de Pós Graduação em Ortodontia do Instituto Prof. Flávio Vellini
- Member of the MBT Global Group

Autor do Livro ORTODONTIA -Diagnóstico e Planejamento Clínico Ed. Artes Médicas 6a. Edição e 2a. Edição em Espanhol.

Contatos: 55 11 2577-7842 55 11 3289-0307
vellini@vellini.com.br


Link do Instituto Vellini:

2 comentários:

  1. Grande Marlão! Pero que não tão grande mais...Risos.

    Ficou ótima a entrevista. Sempre fico entusiasmado lendo a história dos grandes nomes da ortodontia.

    Parabéns Pela abnegação.

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  2. Professor Vellini é a primeira leitura obrigatória à todos os ortodontistas! Parabéns mesmo pelo post de comemoração de 1 ano.

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