ORTODONTIA CONTEMPORÂNEA: A trajetória da Ortodontia no Brasil e os 50 anos da SPO - Parte 01

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A trajetória da Ortodontia no Brasil e os 50 anos da SPO - Parte 01









Neste artigo de 2009, publicado pela Revista de OrtodontiaSPO, pelo autor Adilson Fuzo, no qual mostra que o ensino estruturado da Ortodontia chegou ao Brasil por dois caminhos distintos. Um deles, que desembarcou em São Paulo, veio pelas mãosde Arthur do Prado Dantas. O outro, chegou ao Rio de Janeiro, com José Édimo Soares Martins. Antes deles, a práticada Ortodontia no Brasil era restrita a um grupo pequeno de cirurgiões-dentistas muito determinados.

O livro mais antigo que descreve tratamentos ortodônticos é "Lè Chirurgien Dentiste ou Traitè des Dents", publicado em 1723 pelo francês Pierre Fauchard. Desde aquela época e até muito tempo depois, as técnicas empregadas eram bastante rudimentares, muitas vezes aplicadas apenas aos dentes anteriores. Foi só no final do século 19 que a Ortodontia deu um passo decisivo em direção ao aprimoramento científico com o americano Edward Hartley Angle.

Como era de se esperar, todo conhecimento produzido naquela época nos EUA e na Europa demorava muito para chegar ao Brasil. Dessa forma, a Ortodontia só era praticada aqui por uns poucos cirurgiões-dentistas brasileiros que tiveram vontade de aço, espírito de aventura e recursos suficientes para enfrentar uma viagem de estudos ao exterior durante vários meses.

Conforme o ortodontista Oswaldo Vasconcellos Villella relata em seu livro, "A história da Ortodontia no Brasil", um dos pioneiros nessa difícil empreitada e, provavelmente, o primeiro profissional a praticar a Ortodontia como especialidade no Brasil, foi Carlos de Almeida Lustosa. Já no início da década de 1920, Lustosa fez as primeiras tentativas com pacientes no Rio de Janeiro usando o ribbon arch, tendo como base apenas a descrição das técnicas de Angle publicadas em revistas científicas americanas. Tomado por uma série de dúvidas em relação aos resultados que obteve, Lustosa decidiu que viajaria aos EUA para buscar diretamente na fonte as informações de que precisava.

Apesar do entusiasmo de Lustosa, Angle recusou inicialmente a inscrição do carioca na Angle Scholl of Orthodontia, alegando que lhe faltava conhecimento em matérias básicas, como Anatomia, Embriologia e Histologia. Para ser aceito, Lustosa foi obrigado a cursar a pós-graduação em Ortodontia da Universidade da Pensilvânia e a fazer um estágio no consultório de Harvey Stallard, um proeminente ortodontista americano.

Em 1923, Lustosa desembarcou no Rio de Janeiro com a tão almejada especialização na bagagem. No ano seguinte, tornou-se também o autor do primeiro livro brasileiro totalmente voltado para o tema, "A Orthodontia e a Creança", destinado a pais e clínicos gerais. Alguns anos depois, Lustosa convidou Kant Rothier para ser seu assistente, a quem passou seus conhecimentos. Rothier, por sua vez, também percorreu a rota de aperfeiçoamento nos EUA e, posteriormente, difundiu o que aprendeu entre diversos seguidores.

Em 1925, o presidente Arthur Bernardes determinou que a cadeira de "Ortodontia e Prótese dos Maxilares" constasse no currículo oficial dos cursos de graduação em Odontologia. Em 1931, quando Getúlio Vargas estava no poder, a disciplina foi reestruturada e rebatizada para "Ortodontia e Odontopediatria". O conhecimento transmitido durante o curso de graduação, no entanto, ainda era muito vago e insuficiente para que o aluno pudesse abraçar a Ortodontia sem antes fazer um curso adicional. Como nenhuma instituição oferecia esses cursos no Brasil durante as décadas de 1920, 1930 ou 1940, a especialidade continuou relegada a um grupo muito restrito de profissionais.

A atuação de dois grandes professores foi decisiva para mudar esse quadro. Arthur do Prado Dantas, de São Paulo, e José Édimo Soares Martins, do Rio de Janeiro. Foi a partir do trabalho destes dois mestres que uma importante geração de aspirantes se arregimentou na década de 1950, permitindo que a Ortodontia se estruturasse como especialidade e consolidasse sua presença no Brasil.

Dantas foi o coordenador do primeiro curso de especialização em Ortodontia de que se tem notícia no Brasil. O curso, com duração de dois anos, foi ministrado entre 1951 e 1955 por iniciativa do Departamento de Ortodontia da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD), sendo que duas turmas se formaram.

A clínica do antigo Serviço Dentário Escolar, onde Dantas era responsável pela coordenação da equipe de ortodontistas, também foi um importante núcleo de preparação dessa geração. Para acompanhar o dia-a-dia das atividades na clínica, Dantas recrutou Reynaldo Baracchini. Ele, por sua vez, trouxe Jairo Corrêa, Hênio Heiras e Sebastião Interlandi para atuar como assistentes. A prática na clínica deu a esse grupo os subsídios necessários para que suas carreiras deslanchassem nos anos 1950 e 1960, sendo que Interlandi foi o que mais se destacou na área da educação, coordenando mais tarde o curso de especialização em Ortodontia da USP. Alguns anos mais tarde, este grupo de seguidores de Dantas ajudou a fundar a Sociedade Paulista de Ortodontia.

O primeiro curso de especialização montado no Rio de Janeiro aconteceu em 1956, na Pontifícia Universidade Católica (PUC), pela coordenação de Tobias Kant Rothier, filho do antigo assistente de Carlos Lustosa, Kant Rothier. Durante três anos, formaram-se três turmas, com cerca de dez alunos cada. As aulas eram ministradas no próprio consultório, já que naquela época a PUC não dispunha da infraestrutura necessária.

A maior estrela do ensino de Ortodontia do Rio de Janeiro, no entanto, foi o mineiro Soares Martins, que desde 1937 lecionava na Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil (hoje denominada Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Se valendo de uma bolsa de estudos oferecida pela W.K. Kellog Foundation, Soares Martins viajou para os EUA em 1950, onde se pós-graduou na Universidade de Washington.

Neste mesmo período em que o ensino da Ortodontia se estruturava no Rio de Janeiro, formou-se a Sociedade Brasileira de Ortodontia, em 1955. Ela se formou a partir da união dos três grupos que praticavam Ortodontia no Rio de Janeiro, liderados por Kant Rothier, Newton de Castro e Soares Martins. A primeira presidência foi dada a Moacyr Rutowisch, considerado um ponto de equilíbrio para a entidade, já que não pertencia a grupo nenhum. A SBO teve também como fundadores Armando Werneck de Carvalho, Tobias Kant Rothier, Lineu Marcondes da Silva, Delfino Lustosa, Spencer Rothier e Odilon Frossard de Souza.

Vale lembrar que, na década de 1940, uma entidade denominada Sociedade Brasileira de Ortodontia foi criada no Rio de Janeiro. No entanto, essa entidade teve suas atividades rapidamente encerradas, uma vez que nem todos os sócios praticavam a Ortodontia e havia grande divergência de interesses em seu quadro social.

Dois eventos científicos da Ortodontia de São Paulo marcaram a segunda metade dos anos 1950. O primeiro deles foi a I Semana Paulista de Ortodontia, em 1957, promovida pelo Departamento de Ortodontia da APCD e presidida por Paulo Affonso de Freitas. A presença de ministradores argentinos, como Raul Otaño Antier, Fernando Archain e José Mayoral, além da participação de renomados especialistas de todo o País, transformaram o evento num símbolo da evolução científica que a Ortodontia experimentaria a partir de então, como bem definiu Admar Raupp Terra, de Porto Alegre, em seu discurso de encerramento.

O segundo evento científico se deu em 1959, com um curso especial que mobilizou os mais bem preparados ortodontistas do País. Tratava-se da visita de Earl W. Renfroe, um celebrado especialista da Universidade de Illinois (EUA) que veio ao Brasil pela primeira vez para apresentar a técnica Edgewise, criada por Angle.


Link do artigo na integra via Revista Ortodontia SPO:

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